Doença renal pode ser silenciosa: entenda por que os exames preventivos são tão importantes
Quando pensamos em uma doença, é comum imaginar que o corpo emitirá sinais claros: dor, febre, mal-estar ou alguma mudança fácil de perceber. Entretanto, nem todas as condições se manifestam dessa maneira.A Doença Renal Crônica pode evoluir durante bastante tempo sem provocar sintomas evidentes. Em
Quando pensamos em uma doença, é comum imaginar que o corpo emitirá sinais claros: dor, febre, mal-estar ou alguma mudança fácil de perceber. Entretanto, nem todas as condições se manifestam dessa maneira.
A Doença Renal Crônica pode evoluir durante bastante tempo sem provocar sintomas evidentes. Em muitos casos, a pessoa mantém sua rotina normalmente e só descobre a alteração após realizar exames de sangue ou urina.
Isso não significa que os rins não estejam sendo afetados. Significa que o organismo consegue se adaptar à redução inicial da função renal, fazendo com que os sinais apareçam apenas quando o problema já está mais avançado.
Por esse motivo, conhecer os fatores de risco e realizar uma avaliação médica no momento adequado são atitudes importantes para o diagnóstico precoce e para a proteção dos rins.
O que é a Doença Renal Crônica?
A Doença Renal Crônica, também chamada de DRC, ocorre quando existem alterações persistentes na estrutura ou no funcionamento dos rins com repercussões para a saúde.
Para ser considerada crônica, a alteração precisa permanecer por três meses ou mais. Portanto, um único resultado fora do valor esperado nem sempre confirma o diagnóstico. O médico deve analisar o histórico do paciente, repetir exames quando necessário e considerar outros indicadores.
A DRC pode ser identificada pela redução persistente da taxa de filtração glomerular ou pela presença de sinais de lesão renal, como o aumento da albumina na urina. Exames de imagem e outras alterações clínicas também podem fazer parte da investigação.
As diretrizes atuais avaliam conjuntamente a causa da doença, a taxa de filtração glomerular e a quantidade de albumina presente na urina. Essa combinação ajuda a estimar o risco de progressão e a orientar o acompanhamento.
Qual é a importância dos rins para o organismo?
Os rins não servem apenas para produzir urina. Eles participam de diversas funções fundamentais, entre elas:
- Filtrar o sangue;
- Eliminar resíduos e substâncias que o organismo não precisa;
- Controlar a quantidade de água e sais minerais;
- Colaborar com o controle da pressão arterial;
- Participar do equilíbrio ácido-base;
- Produzir hormônios relacionados à formação das células do sangue;
- Contribuir para a saúde dos ossos.
Quando a função renal diminui, esses mecanismos podem ser comprometidos gradualmente. A intensidade das consequências depende da causa, da velocidade de progressão, das condições associadas e do estágio da doença.
Por que a doença renal pode não causar sintomas?
Os rins apresentam uma importante capacidade de adaptação. Mesmo quando parte de sua função é comprometida, o tecido renal restante pode conseguir manter o equilíbrio do organismo por algum tempo.
É por isso que, nas fases iniciais, a pessoa pode não sentir dor nem perceber alterações específicas.
Segundo o [Ministério da Saúde](https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/drc), a DRC é uma condição silenciosa, e reconhecer as pessoas sob risco é essencial para favorecer o diagnóstico precoce e o início do tratamento. A [Sociedade Brasileira de Nefrologia](https://sbn.org.br/medicos/dia-mundial-do-rim/dia-mundial-do-rim-2019/) também ressalta que os sintomas iniciais podem ser ausentes, discretos ou inespecíficos.
A ausência de sintomas, portanto, não é suficiente para garantir que a função renal esteja normal.
Quem apresenta maior risco?
Qualquer pessoa pode desenvolver uma alteração renal, mas algumas condições aumentam a probabilidade e justificam uma atenção especial.
- Hipertensão arterial
A pressão alta pode lesionar gradualmente os vasos sanguíneos dos rins. Ao mesmo tempo, a perda da função renal pode dificultar o controle da pressão, criando uma relação de agravamento mútuo. - Diabetes
O excesso persistente de glicose no sangue pode danificar as estruturas responsáveis pela filtração renal. O diabetes está entre as principais causas de Doença Renal Crônica. - Doenças cardiovasculares
Coração, vasos sanguíneos e rins funcionam de maneira integrada. Uma alteração cardiovascular pode afetar a circulação renal, enquanto a doença dos rins também aumenta o risco cardiovascular. - Obesidade e alterações metabólicas
A obesidade está associada à hipertensão, ao diabetes, à inflamação e a outras alterações capazes de aumentar a sobrecarga sobre os rins. - Histórico familiar
Pessoas com familiares que apresentam doença renal, rins policísticos ou necessidade de diálise devem informar esse histórico durante a consulta. - Cálculos renais ou infecções recorrentes
Episódios repetidos de cálculos, obstruções ou infecções urinárias podem exigir investigação e acompanhamento específicos. - Doenças autoimunes
Lúpus e outras doenças autoimunes podem comprometer diferentes estruturas dos rins. - Uso inadequado de medicamentos
Alguns medicamentos podem afetar a função renal, principalmente quando utilizados com frequência, em doses inadequadas ou sem acompanhamento. Os anti-inflamatórios merecem atenção especial em pessoas com fatores de risco.
Ter uma dessas condições não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá DRC. Significa que a avaliação deve ser individualizada e realizada com maior atenção.
Quais exames avaliam a saúde dos rins?
A investigação pode começar com exames simples e amplamente disponíveis.
Creatinina no sangue
A creatinina é uma substância produzida pelo metabolismo muscular e eliminada principalmente pelos rins. Sua concentração no sangue ajuda a avaliar a função renal.
Entretanto, a creatinina não deve ser interpretada isoladamente. Idade, sexo, massa muscular, medicamentos, alimentação e outras condições podem influenciar o resultado.
Taxa de filtração glomerular estimada
A partir da creatinina e de informações clínicas, é possível estimar a taxa de filtração glomerular, também chamada de TFG estimada. Esse indicador representa a capacidade dos rins de filtrar o sangue.
Uma TFG reduzida precisa ser avaliada no contexto clínico e, frequentemente, confirmada ao longo do tempo.
Exame de urina
O exame de urina pode identificar sangue, proteínas, sinais de infecção e outras alterações. Mesmo quando a creatinina está dentro da faixa esperada, a urina pode apresentar indícios de lesão renal.
Relação albumina/creatinina na urina
A albumina é uma proteína que normalmente permanece no sangue. Sua presença aumentada na urina pode ser um sinal inicial de lesão nos filtros renais.
A [diretriz KDIGO 2024](https://kdigo.org/guidelines/ckd-evaluation-and-management/) recomenda que a avaliação da doença renal considere tanto a taxa de filtração quanto a albuminúria. Esses indicadores oferecem informações complementares sobre a função, a lesão e o risco renal.
Outros exames podem ser solicitados conforme cada caso, incluindo ultrassonografia, dosagem de eletrólitos, hemograma, exames imunológicos e avaliações mais específicas.
Quais sintomas podem aparecer?
Quando a doença renal avança, podem surgir manifestações como:
- Inchaço nas pernas, nos pés ou ao redor dos olhos;
- Cansaço persistente;
- Fraqueza;
- Redução ou alteração do apetite;
- Náuseas e vômitos;
- Coceira;
- Alterações no volume ou na aparência da urina;
- Espuma persistente na urina;
- Falta de ar;
- Pressão arterial de difícil controle;
- Dificuldade de concentração.
Esses sintomas não são exclusivos das doenças renais. Eles podem ter diversas causas e não devem ser usados para autodiagnóstico.
Da mesma forma, esperar que esses sinais apareçam para só então procurar atendimento pode atrasar a identificação de uma alteração silenciosa.
Urina normal significa rins saudáveis?
Nem sempre.
Uma pessoa pode manter o volume urinário habitual mesmo apresentando redução da função renal. A aparência da urina também não permite avaliar sozinha como os rins estão funcionando.
Cor, cheiro e quantidade podem mudar por causa da hidratação, alimentação, medicamentos, atividade física e outras situações. Somente a avaliação médica, associada aos exames indicados, pode esclarecer se existe alguma alteração.
A doença renal pode ser controlada?
Em muitos casos, identificar a DRC precocemente permite adotar medidas capazes de desacelerar sua progressão e reduzir complicações.
O tratamento depende da causa e pode envolver:
- Controle adequado da pressão arterial;
- Tratamento do diabetes;
- Controle do colesterol e do risco cardiovascular;
- Adequação dos medicamentos;
- Redução do consumo excessivo de sal;
- Alimentação individualizada;
- Prática regular de atividade física;
- Interrupção do tabagismo;
- Acompanhamento da função renal e da albuminúria;
- Tratamento de infecções, cálculos ou obstruções;
- Uso de medicamentos com benefícios renais quando clinicamente indicados.
Não existe uma única dieta, quantidade de água ou tratamento adequado para todas as pessoas. Pacientes com doença renal, cardíaca ou outras condições específicas podem precisar de restrições ou recomendações próprias.
Como proteger os rins no dia a dia?
Alguns cuidados contribuem para a saúde renal e geral:
1. Acompanhe sua pressão arterial.
A hipertensão pode permanecer silenciosa e causar danos progressivos aos rins, ao coração, ao cérebro e aos vasos sanguíneos.
2. Mantenha o diabetes controlado.
Glicemia e hemoglobina glicada devem ser acompanhadas conforme a orientação da equipe de saúde.
3. Evite a automedicação.
O uso recorrente de anti-inflamatórios e de outras substâncias sem orientação pode aumentar o risco de lesão renal.
4. Reduza o excesso de sal.
O consumo elevado de sódio dificulta o controle da pressão e pode contribuir para a retenção de líquidos.
5. Não fume.
O tabagismo prejudica os vasos sanguíneos e aumenta o risco cardiovascular e renal.
6. Mantenha acompanhamento médico.
Doenças crônicas precisam ser acompanhadas mesmo quando parecem controladas ou não produzem sintomas.
7. Faça os exames indicados.
A periodicidade deve ser definida conforme idade, histórico, condições clínicas e fatores de risco.
Quando procurar um nefrologista?
A avaliação nefrológica pode ser recomendada quando existem:
- Creatinina ou taxa de filtração alteradas;
- Albumina, proteínas ou sangue na urina;
- Queda progressiva da função renal;
- Pressão arterial de difícil controle;
- Inchaço sem causa esclarecida;
- Cálculos renais recorrentes;
- Infecções urinárias de repetição;
- Doenças autoimunes com possível comprometimento renal;
- Histórico familiar de doenças renais hereditárias;
- Alterações na estrutura dos rins identificadas em exames;
- Necessidade de avaliar medicamentos em uma pessoa com risco renal.
O nefrologista não acompanha somente pacientes em diálise. Sua atuação também envolve prevenção, investigação, diagnóstico precoce e proteção da função renal.
Não espere os rins “avisarem”
A Doença Renal Crônica pode não causar sintomas nas fases iniciais, mas exames de sangue e urina podem revelar alterações antes que surjam complicações.
Quem apresenta hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade, histórico familiar ou outros fatores de risco deve conversar com seu médico sobre a avaliação da função renal.
Descobrir cedo não significa apenas dar um nome ao problema. Significa ganhar tempo para investigar a causa, controlar os fatores de risco e adotar estratégias capazes de preservar a função dos rins.
Prevenção também é cuidar daquilo que ainda não provoca sintomas.
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Dr. Leandro Cancelli
Médico Nefrologista e Clínico Geral
CRM-PR 30235 | RQE 21893 | RQE 21892
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