Toxicidade renal causada por imunoterapias: por que os rins merecem atenção durante o tratamento do câncer?
Os avanços da oncologia transformaram o tratamento de diversos tipos de câncer. Entre as maiores revoluções da medicina moderna estão as imunoterapias, medicamentos capazes de estimular o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células cancerígenas.Esses tratamentos têm proporcionado
Os avanços da oncologia transformaram o tratamento de diversos tipos de câncer. Entre as maiores revoluções da medicina moderna estão as imunoterapias, medicamentos capazes de estimular o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células cancerígenas.
Esses tratamentos têm proporcionado maior sobrevida e melhor qualidade de vida para milhares de pacientes em todo o mundo. No entanto, como toda terapia inovadora, também podem provocar efeitos colaterais específicos, incluindo complicações que afetam os rins.
Nos últimos anos, a nefrologia passou a desempenhar um papel cada vez mais importante no acompanhamento desses pacientes, dando origem a uma área de atuação voltada para a prevenção, diagnóstico e tratamento das complicações renais relacionadas às imunoterapias.
Neste artigo, você entenderá como esses medicamentos podem afetar os rins, quais são os principais sinais de alerta e por que o acompanhamento com um nefrologista pode fazer toda a diferença durante o tratamento oncológico.
O que são imunoterapias?
Diferentemente da quimioterapia tradicional, que atua diretamente sobre as células cancerígenas, as imunoterapias trabalham estimulando o sistema imunológico para que ele reconheça e destrua o tumor.
Entre os medicamentos mais utilizados atualmente estão os chamados inibidores de checkpoint imunológico, como:
- Pembrolizumabe;
- Nivolumabe;
- Ipilimumabe;
- Atezolizumabe;
- Durvalumabe;
- Cemiplimabe.
Esses medicamentos revolucionaram o tratamento de diversos tipos de câncer, incluindo:
- Melanoma;
- Câncer de pulmão;
- Câncer de rim;
- Câncer de bexiga;
- Linfomas;
- Câncer de cabeça e pescoço;
- Entre outros.
Embora extremamente eficazes, eles podem desencadear uma resposta imunológica exagerada, fazendo com que o organismo ataque tecidos saudáveis.
É justamente nesse contexto que podem surgir as complicações renais.
Como a imunoterapia pode afetar os rins?
Ao estimular intensamente o sistema imunológico, alguns pacientes desenvolvem processos inflamatórios em diferentes órgãos.
Quando essa inflamação ocorre nos rins, ela pode comprometer sua capacidade de filtrar o sangue adequadamente.
A complicação renal mais frequente é a nefrite intersticial aguda, uma inflamação do tecido renal causada pela ativação inadequada do sistema imunológico.
Também podem ocorrer:
- Glomerulonefrites;
- Síndrome nefrótica;
- Lesões tubulares;
- Distúrbios eletrolíticos;
- Redução aguda da função renal.
Embora esses eventos sejam relativamente incomuns, sua identificação precoce é fundamental para evitar danos permanentes.
Quais pacientes apresentam maior risco?
Nem todos os pacientes em uso de imunoterapia desenvolverão problemas renais.
Entretanto, alguns fatores aumentam esse risco, como:
- Doença renal pré-existente;
- Hipertensão arterial;
- Diabetes;
- Idade avançada;
- Uso simultâneo de medicamentos potencialmente tóxicos para os rins;
- Associação entre diferentes imunoterápicos.
Por esse motivo, muitos pacientes precisam de monitoramento renal antes mesmo do início do tratamento.
Quais são os sintomas?
Um dos maiores desafios é que, muitas vezes, a toxicidade renal não provoca sintomas nas fases iniciais.
Na maioria dos casos, ela é descoberta por meio dos exames laboratoriais solicitados durante o acompanhamento oncológico.
Quando existem manifestações clínicas, elas podem incluir:
- Diminuição do volume urinário;
- Inchaço nas pernas;
- Cansaço excessivo;
- Pressão arterial elevada;
- Náuseas;
- Alterações na cor da urina.
Entretanto, muitos pacientes permanecem completamente assintomáticos.
Por isso, exames periódicos são indispensáveis.
Como é feito o diagnóstico?
O nefrologista realiza uma avaliação completa, considerando:
Exames de sangue
A creatinina é um dos principais marcadores utilizados para avaliar a função dos rins.
Sua elevação pode indicar lesão renal.
Exames de urina
A análise da urina pode identificar:
- Proteínas;
- Sangue;
- Células inflamatórias;
- Alterações sugestivas de inflamação renal.
Avaliação clínica
É importante correlacionar:
- O tipo de câncer;
- O medicamento utilizado;
- O tempo desde o início da imunoterapia;
- Outros medicamentos em uso.
Biópsia renal
Em algumas situações, pode ser necessária uma biópsia para confirmar o tipo de lesão renal e direcionar o tratamento mais adequado.
O tratamento pode continuar?
Essa é uma das principais dúvidas dos pacientes.
A resposta depende da gravidade da lesão.
Nos casos leves, muitas vezes é possível continuar a imunoterapia com acompanhamento rigoroso.
Em situações moderadas ou graves, pode ser necessário:
- Suspender temporariamente o medicamento;
- Utilizar corticoides;
- Empregar outros imunossupressores;
- Tratar as complicações renais.
O objetivo é controlar a inflamação preservando, sempre que possível, a continuidade do tratamento contra o câncer.
Cada caso deve ser avaliado individualmente por uma equipe multidisciplinar.
A importância da integração entre oncologia e nefrologia
A medicina moderna trabalha de forma integrada.
Hoje é cada vez mais comum que oncologistas e nefrologistas acompanhem juntos pacientes em uso de imunoterapias.
Essa parceria permite:
- Diagnóstico precoce;
- Tratamento rápido das complicações;
- Preservação da função renal;
- Redução do risco de insuficiência renal;
- Maior segurança durante o tratamento oncológico.
Essa atuação conjunta tem sido um dos grandes avanços da chamada onconefrologia, área que une conhecimentos da oncologia e da nefrologia para oferecer um cuidado mais completo aos pacientes.
É possível prevenir?
Nem toda toxicidade renal pode ser evitada.
Entretanto, algumas medidas reduzem significativamente o risco de complicações:
- Realizar exames periódicos de sangue e urina;
- Manter boa hidratação, quando indicada pela equipe médica;
- Evitar medicamentos nefrotóxicos sem orientação;
- Controlar pressão arterial e diabetes;
- Informar imediatamente qualquer alteração clínica ao médico.
A prevenção está diretamente relacionada ao acompanhamento adequado durante todo o tratamento.
Quando procurar um nefrologista?
O acompanhamento com um especialista é recomendado especialmente quando o paciente:
- Já possui doença renal crônica;
- Apresenta aumento da creatinina durante a imunoterapia;
- Desenvolve alterações nos exames de urina;
- Possui hipertensão ou diabetes associados;
- Necessita de avaliação para continuidade segura do tratamento.
Quanto mais cedo a alteração é identificada, maiores são as chances de recuperação da função dos rins.
Conclusão
As imunoterapias representam um dos maiores avanços da medicina no combate ao câncer, oferecendo novas perspectivas de tratamento para milhares de pacientes. No entanto, seus benefícios devem vir acompanhados de um acompanhamento clínico cuidadoso, especialmente em relação à saúde dos rins.
A toxicidade renal associada à imunoterapia, embora relativamente rara, pode comprometer a função renal se não for reconhecida e tratada precocemente. Felizmente, com monitoramento adequado e uma atuação integrada entre oncologistas e nefrologistas, é possível diagnosticar essas alterações de forma precoce, iniciar o tratamento apropriado e, em muitos casos, manter a continuidade da terapia oncológica com segurança.
Se você ou um familiar está realizando tratamento contra o câncer e apresentou alterações nos exames de função renal, procure avaliação especializada. O cuidado com os rins é parte fundamental de um tratamento oncológico seguro e eficaz.
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Dr. Leandro Cancelli
Médico Especialista em Nefrologia e Clínico Geral
Clínica Vitalle – Centro Médico
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